bela was her name // bela era o seu nome.

I can still remember my grandmother sitting on my bed waiting for me to go asleep. My mum was in the hospital for a surgery and my dad was there with her and so my grandmother came to stay with me. I was afraid of sleeping by myself in a dark room so she did not go away and stayed the night sitting on my bed without closing her eyes until morning. This was my grandmother. Doing everything for everyone. Protecting her family.

Her face is a bit blurred on my mind but I can feel her still. She is present every single day in my memories. She is present on the day I started dating my husband (it was by chance not scheduled to happen this day but it had to be; 13th of May is her birthday and our starting point as a couple). My mum always tells me the stories that my grandmother always chased me around with a coat as she always thought I could get cold and sick. And she always told me to eat everything and even more. I remember waiting for her all excited in my old kitchen back home. It was sunny and my mum was doing tuna steaks in the pan (proper tuna steaks, not those that we sometimes buy here; tuna travesties they are; I once got to buy tuna fish from my earlier fish monger and it stated that it had been caught on my hometown and they were brilliant; pride) with a Madeira style dish, kind of corn chowder (it still is one of my all-time favourite dishes and my husband hates it; that means I have to cook it by myself; though luck…). She arrived and sat down near the kitchen table and we had a conversation. I don’t remember the exact words but it had to do something with school and if I was eating everything my mum gave me (if I didn’t my mum would chase me around the house to give me a little spank in the ass; the sprints around the dining table were a real test of my mum’s patience and sometimes she just broke down laughing). I just remember her presence making me feel happy. I wish I could repeat that day. Being back home in Funchal with my parents with no worries in the world with my grandmother around.

I was around 8 or 9, and I remember everyone at school talking to me and comforting me. I was so disconnected of what had happened. My grandmother had passed away. I was too young to understand the meaning of the turmoil of emotions around me. I don’t remember how I felt. Maybe my mind chose to go into blackout mode (we do this a lot in our country when certain football teams don’t win and they blame the referees i.e. my husband’s favourite football team).

I get angry sometimes for not remembering what happened. Mostly the day my grandmother passed away. My mum tells me that I was asleep in my parents’ bed and I woke up screaming and shouting and crying. My mum asked me what had happened and I just answered: “I had a bad dream, mummy”. It was noon. My mum said to my dad “Hurry, go to the hospital and check on your mother”. My dad arrived at the hospital and my uncle was surprised how my dad had found out that my grandmother had just passed away.

I love you grandmother Bela and I love your youngest (and naughtiest) son so much. He turned out a very special man with a big heart and soul. And chose the most beautiful strong woman to marry him. Thank you for being such an extraordinary woman, mum and grandmother.

// To my Portuguese readers, never think I have abandoned my native language. It is in Portuguese that I still dream and think but the UK has adopted me and has given me opportunities that I could never have the chance to grab back home.
A minha alma será sempre Portuguesa (Madeirense em primeiro lugar). Irei transportar o orgulho Lusitano para onde irei e as futuras gerações Sá Fernandes de Pina Mendes irão conhecer a riqueza dos seus antepassados. //

Translation of the post into Portuguese // Post traduzido para Português

Eu ainda consigo lembrar-me da minha avó sentada no final da minha cama à espera que eu adormecesse. A minha mãe tinha sido operada e estava no hospital com o meu pai. A minha querida avó ficou a tomar conta de mim. Eu tinha medo de dormir sozinha no escuro. A minha avó ficou sentada a noite toda sem dormir. Ela era assim. Fazia tudo por todos. Sempre protegendo a sua família.

A cara da minha avó é uma memória desfocada na minha cabeça, mas eu ainda consigo senti-la próximo de mim. Ela está presente todos os dias nas minhas memórias. Ela está presente no dia em que eu comecei a namorar com o meu marido (foi pura coincidência, nada foi planeado, mas tinha de acontecer desta forma; 13 de Maio é o dia de aniversário da minha avó e é também o nosso ponto de partida como casal). A minha mãe conta-me sempre histórias da minha avó a perseguir-me por todo o lado com um casaco nas mãos. Achava que estava sempre frio e que eu podia ficar doente. E ela dizia-me sempre para comer tudo o que a minha mãe cozinhasse para mim, e talvez ainda mais do que isso. Eu lembro-me de esperar por ela toda feliz na cozinha da minha antiga casa. Era um dia de Verão solarengo e a minha mãe estava a cozinhar bifes de atum (atum como deve ser, não como os que vemos aqui em Londres; travestis de atuns que me arranjam; no meu peixeiro anterior ainda consegui comprar uns belos bifes de atum, o qual envergava orgulhosamente o local de pesca: Funchal) e papas de milho amarelo, um prato típico da Madeira (ainda é um dos meus pratos favoritos de sempre e azar dos azares o meu marido detesta-o o que significa que tenho de ser eu a cozinhá-lo quando me dá os apetites). Ela chegou e sentou-se numa cadeira próxima da mesa de refeição e nós conversámos. Não me lembro das palavras exatas, mas sei que teria de ter algo haver com a escola e se eu estava a comer tudo o que a minha mãe me dava (pobre de mim se não comesse; a minha mãe perseguia-me pela casa toda; as fintas à volta da mesa de jantar eram um teste à paciência da minha mãe que às vezes escangalhava-se a rir, para depois me dar uma valente palmada no rabo).

Eu ainda me lembro de como a presença da minha avó me fazia sentir feliz. Às vezes desejo repetir este dia. Estar na minha antiga casa no Funchal na Rua do Bom Jesus com os meus pais, sem nenhuma preocupação no mundo com a minha avó por perto.

Eu teria à volta dos 8, 9 anos quando toda a gente na escola veio falar coifo e me confortar. Estava tão desligada de tudo o que estava a acontecer. A minha avó tinha falecido. Era muito nova para compreender o significado do turbilhão de acontecimentos à minha volta. Não me lembro de como me senti. Talvez a minha mente optou por entrar em modo blackout (fazemos muito isto em Portugal quando certas equipas de futebol perdem e culpam os árbitros, i.e., a equipa de futebol que o meu marido apoia a qual faltou só um “Tiquinho” este fim de semana passado).

A raiva apodera-se de mim às vezes por não conseguir lembrar-me do que aconteceu. Particularmente do dia em que a minha avó faleceu. A minha mãe conta que eu estava a dormir na cama dos meus pais e que de repente acordei a chorar e a gritar. A minha mãe perguntou o que se passava e só consegui responder “Foi um sonho mau, mãezinha”. Era meio-dia. A minha mãe disse ao meu pai “Vai ao hospital depressa e vê como esta a mãe Bela”. O meu pai chegou ao hospital e o meu tio ficou surpreso. Como teria o meu pai descoberto que a mãe Bela tinha acabado de nos deixar.

Eu amo-te muito avó linda e eu amo muito o teu filho mais novo (e mais traquinas). Ele transformou-se num homem muito especial com um coração e alma do tamanho do mundo. O coração dele escolheu a mulher mais linda e forte do mundo para casar com ele. Obrigada por seres uma mulher, mãe e avó tão extraordinárias.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *